Do visível ao sentido
Notas sobre a Milano Design Week
Começo a escrever este texto cercada de papéis, anotações e imagens que capturei com a ambição inútil de não deixar nada escapar, ansiosa para satisfazer as expectativas que eu mesma criei para a última semana.
Pelo segundo ano consecutivo, consegui reservar um tempo considerável para vivenciar a Semana de Design de Milão. Para quem não conhece (eu mesma não entendia como funcionava até pouco tempo atrás), eu explico. A Milano Design Week, como é originalmente chamada, consiste em um dos eventos mais importantes e influentes do mundo (ou seria do ocidente? 🤔) no campo do design e da arquitetura. Sua realização é anual, geralmente em abril, e é composta por dois grandes pilares:
🛋️ Salone del Mobile (Feira do Móvel de Milão)
É o coração oficial da semana. Criado em 1961, o Salone acontece no centro de exposições Rho Fiera Milano e reúne:
Lançamentos de grandes marcas de mobiliário e interiores;
Designers renomados e emergentes. Há uma seção específica para novos designers chamada Salone Satélite;
Setores como cozinhas, banheiros, iluminação (em anos alternados), e mobiliário e acessórios para salas, quartos, escritórios, áreas externas, etc.
Palestras e rodas de conversa com designers e arquitetos.
É onde o mercado se movimenta, onde rolam os negócios e onde surgem tendências que moldam boa parte do design global ocidental.

🏙️ Fuorisalone (eventos paralelos pela cidade)
É a parte mais vibrante e “democrática” da semana, com centenas de eventos gratuitos e abertos ao público espalhados por bairros e espaços culturais de Milão, cada um com seu estilo e foco.
Durante essa semana, a cidade inteira se transforma: há instalações de arte e design, coquetéis, palestras, exposições, festas e ativações criativas nos mais diferentes lugares. Alguns ficam intransitáveis pela quantidade de pessoas, inclusive.
Mesmo sem planos de visitar o Salone del Mobile, fiz um credenciamento na última hora (graças à newsletter) e acabei tirando um dia para também estar por lá.
Além do acesso à entrada e à sala de imprensa, o credenciamento me permitiu acessar todos os press releases e fotos tiradas pela assessoria do evento, o que foi ótimo, já que a correria nem sempre permite que nos aprofundemos nas narrativas por trás do que está em exposição. No caso abaixo, eu sequer consegui reservar um horário para a entrada.

Como explica Paolo Sorrentino: “Em ‘La dolce attesa’ falamos da espera por uma resposta médica. O tipo de espera que se torna tempo suspenso. Nós ficamos suspensos. Parados, tensos, nervosos. E angustiados. E a sala de espera, tal como foi concebida até agora, só serve para amplificar essa angústia. Entre paredes brancas, cadeiras desconfortáveis, monitores com números a piscar, funcionários mal-humorados, acabamos por nos concentrar obsessivamente no nosso smartphone. Talvez, então, devêssemos repensar a espera. Um truque. Viajar e perdermo-nos na viagem como se estivéssemos numa vaga sensação de hipnose. Assim, talvez a espera possa tornar-se menos dolorosa. Porque se torna outra coisa. A nossa sala de espera aspira a ser outra coisa. Não nos obriga a ficar parados, mas deixa-nos ir. Uma pequena viagem, como quando éramos crianças, em passeios tranquilizadores. Em adultos, os cavalos de balanço se transformaram em cadeirões em forma de concha, como os úteros das mães. Os empregados de escritório descontentes são substituídos por homens e mulheres que nos reconciliam com uma ideia de tranquilidade. Sorriem para nós e sabem nos dar uma palmadinha paternal. O nosso olhar é atraído para um amontoado de vidros foscos que escondem e distorcem o único elemento que, se continuar a bater, pode prolongar a nossa vida. Este é o coração. Escondido, misterioso, semi-invisível, mas está lá, no entanto, nos lembrando que nem tudo está ainda acabado".
Tanto o Salone quanto o Fuori podem ser experienciados de diversas maneiras. Há quem venha fazer negócios, quem cubra o evento para publicações especializadas, quem busque inspiração, quem foque nas instalações e ativações de grandes marcas de moda e luxo e quem queira apenas aproveitar o movimento para encontrar pessoas e estar na rua.
Abre parêntese
Este ano, li algumas críticas sobre o fato de a Semana de Design de Milão estar se transformando em uma semana de turismo de marca, cheia de grandes filas e QR Codes que intimam a um cadastro pré-visitação e espalham nossos dados por toda parte. Um movimento impulsionado pela tiktokzação da experiência, sobretudo no que diz respeito às marcas de luxo, e que tem reconfigurado a forma como essas marcas se expõem.
De fato, é impressionante a disposição das pessoas de passarem horas em uma fila apenas para ganharem uma caneca e uma amostra grátis de perfume, como foi o caso de um estande da Valentino, só para postarem no TikTok. E o quanto as marcas estão perdidas e ansiosas para se fazerem presentes em qualquer trend, buscando a atenção de um público que nem sempre é o seu. Uma discussão longa e que também já apareceu por aqui. Infelizmente, penso que a maior parte dos eventos estará sujeita a isso daqui pra frente.
Eu, particularmente, tento fugir de tudo o que é “imperdível”, o que demanda muito tempo de espera em filas ou o que consigo captar apenas olhando as fotos.
Fecha parêntese
Eu não sou designer, nem arquiteta, nem artista, mas faço parte do grupo de quem busca sentido e inspiração. Nem sempre vou entender o processo físico de criação de uma peça ou instalação, mas procuro compreender o que aquela peça ou instalação representa e como dialoga com o nosso tempo. Ou seja, meu interesse está mais na subjetividade, no campo simbólico daquilo que vejo e no que o conjunto de tudo isso tem a dizer.
Por isso, diante de uma programação tão intensa, tentei escapar das enormes filas e do FOMO (fear of missing out), direcionando meu foco para onde estavam as novidades do momento. Entre esses lugares, estiveram o Salone Satélite — uma seção dentro do Salone dedicada a trabalhos de designers emergentes com menos de 35 anos — e o Tortona Design District, no Fuori, por ser mais experimental e internacional.
Também não deixei de visitar a galeria da designer Rossana Orlandi e a exposição RoCollectible, que em 2025 reuniu mais de 80 designers e artistas do mundo todo.
Mas, porém, contudo, todavia, devo dizer que ainda estou aprendendo a trafegar por tudo isso e que ainda preciso de mais alguns anos até conseguir fazer uma programação redondinha. Tá tudo bem.
Agora, o desafio mesmo é transformar tudo isso em informação. Para pegar mais leve comigo mesma, decidi me guiar pelas sensações e trazer algumas das percepções que ficaram quando tudo acabou, sem a pretensão de desenvolver grandes insights ou tendências.
Abaixo, estão as notas e algumas imagens que funcionam como sinais.
O que os temas nos dizem
O tema do Salone foi Thought for Humans, que, em uma tradução literal, pode ser “pensado para humanos”. Em tempos de inteligência artificial, automação e algoritmos que condicionam nossas escolhas, a frase propõe um retorno ao foco no que é humano, enfatizando a importância de projetos centrados na experiência, na emoção e no bem-estar das pessoas.
Acho interessante que a especificação de “humanos” no título coloque a tecnologia quase como uma antagonista a todas essas possibilidades, refletindo o espaço da casa, e tudo o que o circunda, como um ambiente seguro e protegido das incertezas que nos rondam no mundo “lá fora”, não apenas em relação à tecnologia.
De fato, apesar de termos vivido uma pandemia, acho que desde a virada do milênio não passávamos por um período de tanta incerteza em relação ao impacto das tecnologias digitais em nossas vidas. E não é por acaso que isso vai se refletindo em tudo, inclusive no design de interiores.
Que outros espaços podem ser tão seguros quanto a nossa casa? Bibliotecas, talvez?

Es Devlin afirmou: "Sempre vi as bibliotecas como lugares silenciosos e intensamente vibrantes, onde as mentes e a imaginação se elevam, enquanto são agarradas como papagaios pelos seus corpos sentados. Esta escultura cinética reflecte as ligações sinápticas que estão a ser forjadas, as ressonâncias e associações em jogo nas mentes de uma comunidade temporária de leitores. Como disse Jorge Luis Borges, "Não tenho a certeza de que existo, de facto. Sou todos os escritores que li, todas as pessoas que conheci, tudo o que amei; todas as cidades que visitei. Encontrei entre as estátuas do Cortile de célebres buscadores do conhecimento e do esclarecimento apenas uma mulher académica: Maria Gaetana Agnesi. Tornou-se célebre em toda a Europa pelo seu estudo das frequências ressonantes naturais, incluindo o comportamento da luz, desenhando uma curva que ficou conhecida como “la versiera di Agnesi” (famosamente mal traduzida como a “Bruxa de Agnesi”). Mais tarde, escreveu um guia para fundir a espiritualidade com o intelecto através de uma atenção e concentração sustentadas. Atualmente, tenho muito a aprender com a sua vida e prática, com a forma como navegou nos seus tempos com graça e coragem e, no entanto, até encontrar a sua estátua no Cortile, no ano passado, não tinha conhecimento da sua existência. A Biblioteca da Luz procura trazer a sua presença da periferia para o centro do Cortile".
Já o tema do Fuorisalone, Mondi Connessi — mundos conectados —, parece buscar um meio-termo, propondo um design participativo e generativo, que celebra a arte do envolvimento por meio do design e de formas de inteligência artificial.
A conexão aqui acontece entre diferentes mundos: físico e digital, humano e tecnológico, natural e artificial. Portanto, muito do que foi visto é resultado dessa interseção.

Estética para se exercitar
Saúde — física, mental e espiritual — e bem-estar com foco em longevidade têm sido temas em alta. Queremos viver muito e, para isso, precisamos viver bem e em ambientes que não nos adoeçam. A casa, nesse sentido, se torna parte fundamental desse objetivo.
Nesse contexto, objetos cuja proposta até então era meramente funcional passam a ser também objetos de design. Um exemplo são os aparelhos para a prática de atividades físicas em casa, que ganham novas cores e formas, elaborados com a intenção de representar um incentivo a mais para quem deseja cultivar hábitos saudáveis de vida.
Fui pesquisar mais sobre o assunto e encontrei esta matéria da Revista Casa e Jardim com mais exemplos.
Viver e jogar em conjunto
Quando falamos de conexão e bem-estar, falamos também do combate à epidemia de solidão que tem crescido nos últimos anos, principalmente depois da pandemia, e que representa uma ameaça à saúde pública. Percebi o incentivo a essa conexão em diferentes simulações de espaços de convívio, no estímulo a jogos interativos e a mais momentos vividos em coletividade.
O desenho da natureza
Luminárias em forma de flores, pufes com curvas de nuvem, cadeiras que simulam folhas, banheiras que parecem moldadas com cera de abelha. Não se trata apenas de ter plantas em casa ou um papel de parede florido, mas de uma emulação mais profunda dos elementos da natureza nos objetos que compõem o lar — além da maior valorização da própria matéria em estado quase bruto: pedras, metais, madeira.
Já tinha percebido esse movimento no ano passado, mas desta vez ele me chamou ainda mais atenção. Fiquei com a ideia da casa como esse lugar do sonho e da imaginação, onde tudo pode ser possível.
Formas fluidas, cores pastéis, elementos orgânicos. Tudo reforça a casa como espaço de abrigo simbólico. E aqui, é a natureza que parece guardar o poder de nos salvar.






Feito à mão tem mais valor
Quando Eleonor, relações públicas da Moleskine, começou a me apresentar a instalação da marca explicando os benefícios da escrita à mão para a cognição, pensei: peraí, se isso está sendo dito, é porque não é mais tão óbvio assim. Ela estava impressionada com a disposição das pessoas de se sentarem ali e ficarem escrevendo e desenhando por horas. E é curioso pensar que falamos de uma habilidade tão comum para nós, de humanas, mas que agora precisa ser estimulada em tanta gente.
Em meio ao excesso de criação industrial, com impressoras 3D capazes de fazer quase tudo, aquilo que é artesanal, feito com as mãos, volta a ter um valor ainda maior. O tema também esteve presente no Salone Satélite. Sob o título "Novo Artesanato, um Mundo Novo", os designers foram convidados pela curadora Marva Griffin a resgatar técnicas tradicionais de seus territórios (faltou espaço para foto).

E o design modesto?
Ano passado, a Ligia Fascioni, profissional que admiro e que fala muito sobre inovação (já até entrevistei ela aqui), comentou que não voltaria mais ao Salone porque havia achado tudo muito conservador. Apesar de este ano eu ter visto coisas um tanto diferentes, penso que o conservadorismo ainda é o que prevalece, pois estamos falando do que é mais comercial e que, infelizmente, coincide com o atual momento do mundo. Lamento não ter me dado conta, na hora, de que seria importante registrar isso também. Fica para uma próxima.
Vale a pena fazer o esforço de ir para Milão nessa época?
Bem, para quem trabalha na área e tem condições de vir, mesmo com os contras da superlotação, acho que sim, vale a pena, pelo menos de dois em dois ou três em três anos, já que as coisas também costumam se repetir de um ano para o outro.
Eu aproveito porque vivo aqui e, além de ter o hábito de explorar o que as cidades onde vivo oferecem de melhor, ainda tenho a oportunidade de aprender mais sobre uma área que admiro. Afinal, podemos sempre obter pistas valiosas sobre como o nosso tempo tem sido interpretado ou moldado pelas lentes do design.
No mais, espero que você tenha gostado do pouquinho que trouxe para cá também. Para ver mais imagens, só acessar os últimos destaques do meu perfil no Instagram.
Outras notas da Pessoa Jurídica
👩🏻🏫 Curso sobre Comunicação Digital e IA
Continuam abertas as inscrições para o curso online “Planeamento na comunicação digital em tempos de IA: da estratégia à execução”, facilitado por mim em parceria com a plataforma portuguesa Gerador 🇵🇹. Em uma jornada de 15 horas, distribuídas ao longo de seis semanas, vamos refletir sobre a Inteligência Artificial Generativa e entender de que forma ela pode nos ajudar nas diferentes etapas de um planejamento estratégico de comunicação. As aulas começam no dia 14 de maio, às 19h (horário de Portugal).
📰 Curso para jornalistas e profissionais de media de Portugal
Também seguem abertas as inscrições para o curso Plataformas, que integra o programa de formação B-Digital Media, voltado a jornalistas e profissionais de media de Portugal 🇵🇹 e do qual participo como formadora convidada. Desenvolvido pelo Cenjor — Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas em parceria com a API — Associação Portuguesa de Imprensa e o AMCC — Aveiro Media Competence Center, o projeto oferece uma experiência completa para quem quer aprofundar os seus conhecimentos no mundo digital.
As inscrições são gratuitas e podem ser feitas aqui. Vale dizer que já assisti à primeira aula do curso Digitalização e fiquei ainda mais animada com tudo o que está por vir.
Enquanto isso, na Pessoa Física
🏡 Nosso projeto do ano
Para além do trabalho, a Semana de Design de Milão teve o importante papel de ser fonte de inspiração para um projeto muito especial: o novo apartamento da família Possas-Tocco, que entrou em reforma no início de abril e tem sido reestruturado praticamente do zero. Estamos felizes e completamente absorvidos por todos os detalhes do processo. Ainda vou falar dessa experiência com calma.
😎 Aviso de folga
Entre os dias 1º e 4 de maio, esta trabalhadora que vos fala tirará uns dias de descanso. Portanto, a próxima news, prevista para o dia 2/5, estará na sua caixa de entrada no dia 9. Até lá!
Em outras redes
Já nos conectamos pelo LinkedIn?
E pelo Instagram?
Mesmo em hiato, ainda te convido a ouvir o Ouvidorama, meu podcast. As conversas continuam atuais.
👋🏼 Até a próxima!






Obrigada por trazer para nós um pouquinho da Milano Design Week e dos teus insights valiosos, Ana. A arte da biblioteca estava magnífica e não posso concordar mais com a frase do Borges. Interessante também ver essas tentativas de resgate do humano. Talvez as pessoas estejam tomando a consciência de que talvez, mas muito provavelmente, pesamos um tiquinho demais a mão na digitalização da vida.