Milano Design Week 2026
Fascínio e desconforto
De novo, eis-me aqui, rodeada de folders, cartões e jornais, diante de um dos textos que considero mais desafiadores de escrever: aquele que reúne algumas notas da Semana de Design de Milão, realizada entre os dias 20 e 26 de abril.
No meu quarto ano aqui, sinto que ainda estou aprendendo a circular pelos eventos, já bastante consciente e conformada com a lógica do “tudo não verás” e entendendo o quanto é importante arcar com as minhas escolhas para me sentir presente.
Como é impossível ver tudo o que gostaria, resta aprender a conviver — ou ignorar — a sensação recorrente de ter perdido o melhor, já que a comunicação sobre a semana é feita para que sintamos o famoso medo de ficar de fora o tempo inteiro.
Ainda assim, entre cadeiras e cozinhas, instalações infláveis, experiências sensoriais, ativações de marcas e o furor que toma conta da cidade, é sempre possível captar alguns sinais que indicam os movimentos do nosso tempo.
Este ano, eu me dividi entre um dia no Salone del Mobile e três dias de Fuorisalone, evitando filas e abrindo espaço para programações paralelas e encontros que surgiram pelo caminho.
O que você vai ler a seguir são algumas das percepções que ficaram comigo depois da edição de 2026, embora seja importante dizer que o que pontuei em 2025 segue valendo.
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Salone del Mobile 2026: impressões e mudanças
Ao contrário dos dois anos anteriores, em que me concentrei em alguns espaços de interiores e trabalho, este ano fui ao Salone com foco em explorar instalações, compreender o que a feira trazia de novo e assistir à leitura do arquiteto Rem Koolhaas sobre novas perspectivas para a arquitetura.
Além da forma e da função
O tema da 64ª edição da feira foi A Matter of Salone, centrado na essência dos materiais e na matéria como expressão cultural, de memória e de transformação. O foco esteve, portanto, nos diferentes tipos de matéria-prima e em uma ideia de inovação que coloca o significado em um nível de importância tão alto quanto a forma e a funcionalidade. Nesse sentido, o contexto cultural e a sabedoria de quem cria atribuem ainda mais valor ao que é criado.
Raridade é a palavra da vez
Um dos exemplos disso foi a inauguração do Salone Raritas, que reuniu antiquários, galerias e designers para a exibição de artigos de edição limitada, peças únicas e de alta manufatura.
Minha percepção sobre esse movimento encontra eco na análise da jornalista Debika Ray, publicada na Dezeen Dispatch, que interpreta o destaque aos artigos de design raros e colecionáveis como resposta a uma produção em massa moralmente comprometida.
Desse modo, a criação de valor se desloca daquilo que é útil para aquilo que é único, o que inclui o resgate e a maior valorização de trabalhos artesanais marginalizados até pouco tempo atrás.
À medida que a ilusão da abundância planetária chega ao fim, o que mais cobiçamos agora é aquilo que é escasso e disputado: tempo, atenção humana, recursos naturais e ligações ao património cultural.
É por isso que o design coletivo é tantas vezes definido pela estética do artesanato: as impressões digitais sugerem um toque humano, as imperfeições implicam um processo laborioso e os materiais naturais apontam para a sustentabilidade.
O artesanato costumava ser marginalizado como algo inferior — um passatempo redundante das classes trabalhadoras, das mulheres, dos migrantes, dos povos indígenas e das populações do mundo em desenvolvimento. Agora, possui capital cultural, representando uma alternativa ética à produção em massa destrutiva: uma alternativa baseada no conhecimento dos materiais, na habilidade e na produção local e em pequena escala.
Debika Ray sobre o Salone Raritas para a Dezeen Dispatch
Do utilitário ao sensorial
A cada dois anos, o Salone apresenta o Salone Internazionale del Bagno e a EuroCucina, reunindo o que há de mais inovador nesses setores. Circulando rapidamente por ambos os pavilhões, me chamou a atenção o protagonismo dado ao banheiro.
De ambiente essencialmente utilitário, ele agora recebe a mesma atenção dedicada a uma sala de estar. Mais do que isso, torna-se um dos poucos territórios possíveis de pausa, bem-estar e autocuidado, talvez um dos últimos espaços de desconexão real. Afinal, acho que só não usamos o celular quando estamos no banho, não é mesmo?!
Pensando assim, não parece exagero dizer que o banheiro tem se tornado, sim, um dos lugares mais importantes da casa.




Novas perspectivas para a arquitetura
Na leitura Current Preoccupations, o arquiteto Rem Koolhaas apresentou três exemplos do último século para mostrar como a colaboração e os arranjos contratuais podem moldar a prática arquitetônica em contextos de alta complexidade. A análise ganha ainda mais relevância diante do cenário atual, em que tensões geopolíticas, crises logísticas e restrições migratórias desafiam a execução técnica de grandes projetos.
Seus argumentos sugerem que a arquitetura do futuro tende a deixar de ser a expressão de visões individuais para se tornar uma “alquimia do contrato”, marcada por dinâmicas profundamente colaborativas. Isso porque tanto a viabilidade quanto o desenho das obras contemporâneas passam a depender da capacidade de improvisar diante de crises globais e de operar dentro de novos eixos de estabilidade geopolítica.
De forma mais ampla, esse raciocínio parece extrapolar o campo da arquitetura. Em cenários de instabilidade, a formação de redes de colaboração deixa de ser uma escolha estratégica para se tornar uma condição essencial de continuidade para diferentes áreas de atuação.
O Salone vai mudar
A fala de Koolhaas funcionou como introdução ao anúncio do Salone Contract, pavilhão previsto para a edição de 2027 do Salone del Mobile. A proposta prioriza a colaboração e o intercâmbio entre diferentes agentes da cadeia produtiva, de arquitetos a fabricantes.
Em vez de focar em produtos isolados, o espaço propõe destacar consórcios e processos colaborativos voltados ao desenvolvimento de soluções integradas, capazes de atender demandas complexas em áreas como escritórios, hospitalidade, projetos institucionais e náutica.
O pavilhão será estruturado como um fórum de interação, incentivando o diálogo contínuo e a adaptação a contextos em transformação. Com isso, a feira se posiciona cada vez mais como uma plataforma de conhecimento e articulação estratégica, indo muito além da exposição de objetos.
Fuorisalone 2026
O tema do Fuorisalone este ano foi Be the project, com uma proposta que carrega dois sentidos complementares. De um lado, um convite a nos enxergarmos como agentes de visão, desejo, responsabilidade e mudança; de outro, a ideia de processo contínuo, de algo inacabado e imperfeito.

Mais inteligência artesanal
Assim como no Salone, a artesania também apareceu com força no Fuorisalone, em diferentes exposições que valorizam o trabalho manual e relatam um esforço intenso de resgate de técnicas antigas. O valor, mais uma vez, está na unicidade e no tempo despendido para a criação de cada artefato.

Pensar é mesmo o novo luxo
Recentemente, li um artigo no qual o antropólogo Michel Alcoforado afirma que, quando questionado sobre o que é luxo, sua resposta agora é: pensar.
A provocação é interessante e incômoda ao mesmo tempo, porque se o pensamento entra no vocabulário do luxo, ele corre o risco de ser rapidamente apropriado e convertido em experiência de marca do setor.
No Fuorisalone, isso aparece de forma evidente em iniciativas como o clube do livro da Miu Miu e o Prada Frames, em que as marcas se propõem a atuar como plataformas de reflexão.
Assisti a uma das exibições do Prada Frames, que esteve em sua quarta edição no complexo Santa Maria delle Grazie. Curado pelo estúdio Formafantasma, o projeto parte da ideia de que investigação intelectual e diálogo interdisciplinar podem funcionar como vetores de progresso.
Sob o tema In Sight, essa edição investigou a imagem como elemento central da cultura contemporânea. Ouvi boas reflexões sobre a capacidade de pensar, interpretar e criar em meio à complexidade de um mundo no qual a geração de imagens passa a ser mais rápida do que o pensamento.
O que ficou depois da semana
Como alguém bastante próxima do universo do design de interiores e da decoração nos últimos meses por conta da reforma de um apartamento, venho percebendo uma mudança clara da importância dos objetos para a história por trás dos objetos e de sua criação.
Se em 2010 ou 2012 grande parte das referências de interiores que eu acompanhava ainda girava em torno do faça você mesmo e de móveis de marcas acessíveis, hoje há um protagonismo maior de peças originais, de design autoral e de projetos que valorizam sua trajetória.
Além disso, cresce o interesse pelo que veio antes, com reformas que preservam estruturas originais, materiais naturais e o garimpo de móveis e peças antigas de decoração.
Atualmente, com tantas plataformas capazes de copiar e distribuir tudo em escala, ganha valor aquilo que não pode ser facilmente replicado, ou mesmo aquilo que pode ser replicado, mas carrega uma assinatura original.
No contexto de hiperestetização da vida doméstica, e levando em conta que quase tudo o que envolve o espaço privado da casa também se torna pauta para criação de conteúdo público, temos aí um novo ponto de distinção estética e social.
Considerando o que vi, senti a Semana de Design de Milão em um certo confronto com a inteligência artificial generativa, com a capacidade de pensar e de criar humanas mais valorizadas do que nunca. Ainda assim, há algo de ambíguo nisso tudo, uma valorização crescente do pensamento que ao mesmo tempo revela um campo profundamente elitizado.
Mesmo quando se aproxima da cultura, o design continua, em muitos casos, operando mais como distinção estética do que como ferramenta de transformação da vida cotidiana. Dentro dessa lógica, acessamos inúmeras narrativas capazes de gerar desejo, mas que não oferecem respostas às complexidades do nosso tempo.
Fica aqui, portanto, o lembrete para a minha curadoria em 2027: buscar projetos em que exclusividade deixe de ser o eixo central e a inclusão se torne o princípio estruturante.

*Em breve, farei uma rodada com mais fotos no meu perfil do Instagram.
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